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A Justiça decretou a falência da tradicional indústria de móveis Três Irmãos, de Campo Alegre, no Planalto Norte de Santa Catarina. A decisão foi assinada nesta segunda-feira (10) e determina uma série de medidas para preservar o patrimônio da empresa, incluindo o lacre da fábrica e das filiais.
Segundo a sentença, as atividades produtivas da empresa estavam paralisadas desde 14 de maio de 2026. O processo aponta ainda um passivo de aproximadamente R$ 133 milhões, valor que poderá ser alterado durante o processo de habilitação e verificação dos créditos.
A decisão também determina que a Recupere, administradora judicial, faça a arrecadação dos bens e documentos da empresa, além de realizar o inventário e a avaliação do patrimônio. Posteriormente, os ativos poderão ser vendidos para o pagamento dos credores. Um leiloeiro deverá ser indicado no decorrer do processo.
Recuperação judicial não conseguiu evitar a falência
O pedido de recuperação judicial da Três Irmãos começou em 2024. Na época, a empresa apresentou à Justiça um cenário de dificuldades financeiras agravado principalmente pelos impactos da pandemia de Covid-19 sobre o comércio exterior.
De acordo com as informações apresentadas no processo, a crise começou a se aprofundar a partir de 2021, com problemas na logística internacional, falta de contêineres, atrasos nos portos e aumento expressivo dos custos de transporte.
A empresa também enfrentou queda nas vendas para o mercado externo, incluindo importantes destinos internacionais, além do aumento dos custos de matérias-primas e dos juros.
Descumprimento do plano pesou na decisão
O pedido de falência havia sido apresentado pelo Ministério Público em junho de 2026.
Na análise do processo, o juiz apontou uma série de fatores que demonstrariam o descumprimento das obrigações assumidas pela empresa durante a recuperação judicial.
Entre os pontos citados na sentença está o inadimplemento de credores, com saldos em aberto de aproximadamente R$ 210,3 mil e € 175,5 mil.
Também foi apontada a falta de comprovação da destinação de aproximadamente R$ 3,25 milhões obtidos com a alienação de ativos que haviam sido anteriormente autorizados e homologados no processo.
Outro problema identificado foi o descumprimento de parcelamentos fiscais. Segundo a decisão, três parcelamentos de ICMS foram cancelados pelo Estado de Santa Catarina após atrasos de três ou mais parcelas. Também foram registrados débitos perante a Receita Federal.
Justiça aponta “esvaziamento patrimonial”
A sentença também menciona o chamado “esvaziamento patrimonial”.
Segundo o processo, teria ocorrido a retirada acelerada e sem autorização judicial de maquinários de grande porte da sede da empresa.
A situação foi considerada ainda mais grave diante da paralisação total da produção desde maio e do estado de abandono encontrado na matriz.
Diante desse cenário, a Justiça determinou medidas para preservar os bens que ainda pertencem à empresa e impedir que sejam retirados ou transferidos sem autorização.
Fábrica e filiais deverão ser lacradas
Entre as primeiras medidas determinadas pela Justiça está a expedição, em caráter de urgência, de um mandado para lacrar os estabelecimentos da Três Irmãos.
A medida deverá atingir a matriz em Campo Alegre e a unidade de Caçador.
O oficial de Justiça deverá realizar a diligência acompanhado pela Administração Judicial.
Também deverá ser realizada uma busca para identificar possíveis bens pertencentes à empresa, incluindo imóveis, máquinas, equipamentos e outros ativos que possam ser utilizados para o pagamento dos credores.
Administradora terá prazo para levantar patrimônio e responsabilidades
A Recupere, que atua como administradora judicial, terá 60 dias após assumir formalmente a função na falência para apresentar um plano detalhado de realização dos ativos.
O planejamento deverá prever uma estimativa de tempo de até 180 dias para a venda dos bens.
A administradora também deverá apresentar, em até 40 dias após a assinatura do termo, um relatório sobre as causas que levaram à falência e eventuais responsabilidades civis e penais relacionadas à quebra da empresa.
Dívida de R$ 133 milhões ainda pode mudar
A relação de credores ainda poderá sofrer alterações.
A Três Irmãos terá cinco dias para apresentar a relação de credores em formato de planilha eletrônica. Caso isso não ocorra, será utilizada a relação já elaborada pela Administração Judicial.
Após a publicação da relação, os credores terão 15 dias para apresentar eventuais divergências ou contestações.
Por esse motivo, o valor atualmente estimado em aproximadamente R$ 133 milhões não é definitivo e poderá ser atualizado durante o processo de falência.
Mais de 300 funcionários estavam ligados às unidades
Ainda não há informações oficiais consolidadas sobre quantos trabalhadores foram efetivamente desligados ou se ainda existem funcionários ativos.
Segundo informações apresentadas pela Administração Judicial, até abril deste ano havia aproximadamente 301 funcionários, entre ativos e afastados, considerando a unidade de Caçador e a matriz de Campo Alegre.
Os dados constam no Relatório Mensal de Atividades referente ao mês de abril.
Uma história que começou há mais de 50 anos
A trajetória da Três Irmãos começou em 1971, em Campo Alegre, com uma pequena marcenaria familiar dedicada inicialmente à fabricação de carroças.
Com o passar dos anos, a empresa expandiu suas atividades e passou a produzir móveis de madeira maciça destinados ao mercado brasileiro, incluindo mesas, cadeiras e peças entalhadas artesanalmente.
A indústria conquistou espaço no mercado e iniciou uma nova fase de expansão com a entrada no comércio exterior.
Um dos momentos importantes ocorreu em 2009, quando a Três Irmãos realizou sua primeira exportação para a multinacional sueca IKEA, uma das maiores empresas do setor de móveis do mundo.
Expansão para Caçador e São Bento do Sul
Em 2016, a empresa adquiriu uma unidade industrial em Caçador. A planta chegou a processar cerca de 15 mil toneladas de madeira por mês e recebeu investimentos em automação, máquinas, sistemas de gestão e controle de qualidade.
Em 2020, a Três Irmãos também inaugurou um parque industrial com mais de 16 mil metros quadrados em São Bento do Sul.
A unidade, porém, acabou sendo fechada em maio de 2023.
Em seu período de maior atividade, a empresa chegou a empregar aproximadamente 500 trabalhadores diretamente, além de movimentar uma extensa cadeia de fornecedores e serviços ligados à produção moveleira.
Pandemia agravou uma crise que começou na logística internacional
Segundo o plano de recuperação judicial, a situação financeira da empresa começou a se deteriorar principalmente a partir de 2021.
A pandemia provocou uma forte crise na logística internacional. A falta de contêineres, os atrasos nos portos e a escassez de matérias-primas elevaram os custos e dificultaram o envio de produtos para clientes estrangeiros.
O custo do transporte marítimo de um contêiner chegou a aproximadamente US$ 10 mil, cerca de sete vezes acima dos valores registrados antes da pandemia.
Sem espaço suficiente para armazenar os móveis produzidos e enfrentando dificuldades para embarcar as mercadorias, a empresa chegou a interromper temporariamente a produção.
Queda nas exportações e aumento dos custos
Entre o final de 2022 e 2023, a situação teria se agravado com a redução das vendas externas e a elevação dos juros.
O plano de recuperação judicial aponta que as exportações de móveis de Santa Catarina caíram 27,7% em 2023, na comparação com 2022.
Ao mesmo tempo, houve aumento nos preços de matérias-primas e insumos, como madeira, MDF, ferragens, colas e vernizes, além de elevação dos custos de energia, combustíveis e transporte.
A combinação desses fatores reduziu a capacidade de geração de receita e pressionou o caixa da indústria.
Fim de uma trajetória de mais de cinco décadas
Após mais de 50 anos de história, a Três Irmãos chega agora a uma nova etapa, desta vez sob um processo de falência.
A Justiça deverá concentrar os próximos passos na preservação, identificação e venda dos bens da empresa, além da apuração dos créditos e das responsabilidades relacionadas à quebra.
O processo ainda terá novas etapas, e os valores da dívida, a relação de credores e o patrimônio disponível poderão ser modificados conforme os levantamentos realizados pela Administração Judicial.
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Portal São Bento
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